Quando a política abdicou dos afetos. A antipolítica ocupou o espaço.

Escrevo esta coluna a partir das eleições portuguesas, mas ela não é apenas sobre Portugal. Quem está no Brasil faria bem em ler com atenção. O que se vê aqui antecipa, com poucos disfarces, o motor afetivo e comunicacional que tende a organizar a disputa eleitoral de 2026.

Acompanho de perto os movimentos digitais de André Ventura há mais de dois anos. Não só por curiosidade mas como objeto de estudo. Ainda antes das autárquicas, quando o debate público português insistia em tratar o Chega como um ruído passageiro, os dados já mostravam outra coisa. Engajamento estruturalmente superior, domínio do tempo de atenção, capacidade de impor temas e uma constância narrativa que atravessava plataformas. O segundo turno confirmado hoje nas presidenciais portuguesas não nasce do improviso. Ele é o ponto de chegada de uma lógica que vem sendo construída há bastante tempo.

Portugal não chegou a este momento por acaso. Chegou porque a política institucional perdeu a capacidade de organizar afetos. E quando a política deixa esse espaço em aberto, alguém o ocupa. Hoje, esse alguém não é necessariamente quem oferece mais soluções, mas quem consegue dar sentido emocional à frustração acumulada. Assistimos um ensaio disso recentemente com Pablo Marçal(São Paulo) e Cristina Graeml(Curitiba).

É aqui que entra o elemento decisivo desta eleição, mais profundo do que comunicação, mais estrutural do que a estratégia. A antipolítica sequestrou os afetos tristes. Medo, ressentimento, sensação de perda, cansaço, humilhação simbólica. Tudo aquilo que as democracias liberais aprenderam a administrar tecnicamente, mas desaprenderam a narrar politicamente, passou a ser explorado como matéria-prima central.

Ventura não criou esses afetos. Ele os organizou. Deu linguagem, enquadramento e inimigo. Transformou frustração difusa em identidade política. Isso explica por que a sua comunicação não depende de sofisticação. É extramamente tosca. Ela depende de reconhecimento. O eleitor não se sente convencido. Sente-se finalmente validado.

Há um erro recorrente em reduzir esse processo a truque digital. O que está em jogo é afeto, pertencimento. Ventura aparece como o único candidato associado a uma causa clara porque os demais abriram mão de disputar esse terreno. Enquanto um fala de coesão nacional, imigração, serviços públicos e decadência institucional como sintomas de uma crise existencial do país, os outros orbitam a gestão, a moderação e o anti-Ventura como se isso fosse projeto.

Quando a política se limita a administrar, ela abandona o campo do sentido. E o sentido é sempre ocupado por alguém.

A campanha presidencial portuguesa amplificou esse quadro. Foi um exercício coletivo de má comunicação. Mensagens contraditórias, mudanças de tom pouco explicadas, slogans que não organizavam nada além do vazio. Num ambiente assim, o candidato que repete a mesma narrativa, mesmo que incômoda, passa a parecer sólido. Não por ser melhor. Mas por ser inteligível, fazer algum sentido, ser coerente no tempo.

Ventura também compreendeu algo que muitos subestimam. O populismo que sobrevive precisa aprender a governar afetos, não apenas a incendiá-los. A mudança de registo observada nesta campanha não foi moderação ideológica. Foi ajuste pensado para tornar a eleição viavel. Menos provocação, mais linguagem institucional. Menos choque, mais discurso de responsabilidade. A pauta permanece. O tom se adapta. É o movimento clássico de presidencialização do populista. Uma moderação ao centro, ao menos no palanque.

Esse ajuste amplia o eleitorado porque dialoga com um sentimento ambíguo muito presente hoje. O eleitor está frustrado, mas teme o colapso. Quer ruptura, mas não desordem. Quando o candidato consegue falar com os afetos tristes sem parecer descontrolado, ele se torna plausível como alternativa de poder.

A centralidade mediática de Ventura completa o quadro. Os debates mais vistos foram os que o incluíram. Isso não é apenas popularidade, é também definição de agenda, capacidade de pautar. Quem concentra atenção define o enquadramento e força os outros a reagir. Quando adversários passam a imitar o seu tom e os seus gestos, confirmam a sua hegemonia simbólica.

Esse padrão não é exclusivo de Portugal. Javier Milei construiu sua ascensão a partir da radicalização dos afetos tristes, convertendo frustração econômica em guerra cultural permanente. Lula, por outro caminho, também opera no campo afetivo, reorganizando esperança, pertencimento e reconstrução após o esgotamento social. Ideologicamente opostos, tecnicamente conectados. Todos entenderam que o poder contemporâneo passa pela disputa do sentido emocional da política.

Esse é o verdadeiro algoritmo do poder. Não é sobre rede social simplesmente. Mas se manifesta e corre pelo tecido social através dela. É a capacidade de transformar afeto em identidade e identidade em voto. Quem ignora isso fala cada vez mais sozinho.

O chamado anti-venturismo falhou porque tratou Ventura como anomalia moral, não como sintoma político. Ao transformá-lo em espantalho, o sistema ofereceu a ele a exclusividade do descontentamento. Governou sem resolver e terceirizou a raiva. A cada ciclo, o risco que Ventura representa parece menor diante da experiência concreta da estagnação.

No segundo turno, António José Seguro encarna a promessa de estabilidade e normalidade institucional. Ventura encarna a promessa de reorganizar o país a partir da frustração acumulada. Não é apenas uma disputa eleitoral. É um confronto entre duas formas de lidar com os afetos coletivos.

Nada disso é episódico. Quando a política abdica de disputar emoções, a antipolítica assume o comando. Ventura não inventou o mal-estar. Ele entendeu que, num mundo saturado de promessas vazias, quem dá nome ao cansaço tem espaço neste debate. E, em Portugla, isso basta para chegar ao segundo turno nas eleições presidenciais, após 40 anos de decisões em um único turno.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.

Anúncios e chamada para o mailing