
Que a comunicação não acontece só com palavras você já sabe – ou deveria saber.
Ela está nos gestos (comunicação não verbal), nos silêncios (as pausas estratégicas, tão menosprezadas pelos oradores) e também nas escolhas simbólicas que fazemos.
E foi exatamente por isso que a primeira aparição pública do ministro Cristiano Zanin como integrante do Supremo Tribunal Federal soou, para mim, fora do tom.
O episódio é um pouco antigo, mas fiz questão de abordá-lo nesta coluna como um alerta.
Até porque erros simbólicos na comunicação institucional não perdem validade — eles viram referência negativa.
Lembremos o episódio: o recém-empossado ministro comemorou sua estreia no STF em um evento privado no Rio de Janeiro, promovido por sua esposa, a advogada Verônica Sterman.
A recepção foi em um rooftop elegante de hotel, com convidados seletíssimos — entre eles políticos, empresários e juristas.
A propósito, não há ilegalidade nisso e nem má-fé.
Mas pode ter havido um erro de leitura simbólica — como eu sempre digo, tudo comunica.
Cristiano Zanin não era um nome neutro para a sociedade brasileira. Sua indicação ao STF veio cercada de críticas e desconfiança por ter sido advogado pessoal de Lula em processos da Lava Jato.
Justamente por isso, sua comunicação deveria ser ainda mais técnica e institucional. Ele precisava construir pontes simbólicas com a sociedade — e não reforçar a ideia de que segue orbitando o mesmo núcleo de poder.
Estrear no Supremo era também estrear um novo papel diante do país. Era o momento em que o novo ministro tinha a chance de se posicionar com isenção, afirmando seu compromisso com a Constituição, e não com círculos privados.
Ok, Fred, mas o que ele poderia ter feito de diferente?
Muita coisa, como uma visita institucional, discurso de boas-vindas, uma participação em ação social — qualquer gesto que dissesse: “agora estou a serviço do Brasil”. Mas preferiu o coquetel.
Em um país marcado pela desigualdade social, a escolha de um evento fechado, glamouroso e familiar como primeira aparição pública é esteticamente descolada da realidade nacional.
Outro detalhe importante: não houve declaração pública. Nenhuma fala institucional, nem mesmo uma mensagem curta de agradecimento.
E, nesse contexto, o silêncio virou ruído.
Na comunicação pública, quem não ocupa o espaço simbólico com intenção, permite que ele seja preenchido por ruído.
Se “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”, na comunicação política e institucional não basta ser correto — é preciso parecer comprometido.
Foto: Metrópoles