Reputação em terra de ninguém

O caso do cachorro Orelha, brutalmente ferido e posteriormente sacrificado, escancarou a vulnerabilidade a que todos estamos sujeitos quando a reputação passa a depender de plataformas digitais sem regulamentação clara e sem responsabilidade proporcional ao poder que exercem.

Nos anos 90, antes das redes sociais, um episódio virou assunto obrigatório nos cursos de jornalismo: o caso da Escola Base. Os proprietários de uma escola infantil foram acusados de abuso sexual a partir de suspeitas levantadas por uma autoridade, com base em depoimentos frágeis.

A imprensa, de forma imprudente, divulgou a denúncia sem ouvir os envolvidos. A escola fechou, a vida dos proprietários foi destruída, e a absolvição só veio quando já era tarde.

A lógica se repete neste novo episódio: comoção, indignação e pressa por um culpado. A diferença é que hoje o julgamento ganhou escala industrial.

O caso do Orelha provocou uma justificada comoção nacional, mas acende um alerta desconfortável: a falta de regulamentação efetiva das plataformas cria um ambiente fértil para campanhas de difamação, investigações amadoras e verdadeiras milícias digitais, que apontam para pessoas e empresas sem qualquer relação com os fatos. Denunciar uma publicação mentirosa e receber como resposta que “não viola as políticas da comunidade” não é apenas irritante. É a prova de que não há interesse em reparar danos. Simplesmente não é prioridade.

E o que esse caso, ainda sem o desfecho que a sociedade espera, ensina a quem trabalha com marcas, reputação e crises de imagem?

Primeiro: não existe controle total.

A crise vem em ondas. Às vezes, o maior risco não está no fato original, mas no que se cola a ele por associação, maldade ou oportunismo. O instinto de “resolver logo” é humano, embora nem sempre seja inteligente.

Segundo: a velocidade é inimiga do bom juízo.

Reações apressadas, tomadas no calor dos fatos, podem ampliar danos. Timing importa, sim. Mas, se tiver que escolher, é melhor sustentar um posicionamento sólido do que publicar algo frágil apenas para preencher o silêncio. O silêncio, quando planejado, também comunica.

Terceiro: não se discute com multidão difusa.

Em ambiente de linchamento virtual, argumentos raramente esclarecem. Geralmente só alimentam mais ódio. A comunicação precisa ser objetiva, replicável e, em certos momentos, quase protocolar. E o trabalho mais importante acontece nos bastidores: registro, evidências, jurídico, proteção de pessoas.

Quarto: confie na equipe, mas não terceirize a decisão.

Ouça todo mundo, filtre, e assuma o comando. Crise não é receita de bolo. Cada caso tem sua dinâmica, seu público, seus gatilhos. Seu olhar e seu instinto são importantes.

No fim, talvez o aprendizado mais desconfortável seja este: enquanto o espaço público digital seguir funcionando como terra de ninguém, resta tentar minimizar danos, que são quase sempre inevitáveis.

No episódio do Orelha, uma combinação de violência, ruído, omissões, desconfiança institucional e ambiente emocional inflamado serviu de gatilho para que pessoas e empresas completamente alheias aos acontecimentos fossem arrastadas para o centro da exposição, por coincidências de nomes, associações indevidas e ilações irresponsáveis.

Hoje foram elas. Amanhã, pode ser qualquer um. Inclusive quem lê esta coluna achando que está a salvo.

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