Esta coluna havia sido inicialmente planejada para que eu pudesse começar a compartilhar minha experiência na Universidade de Stanford, onde permaneço até abril. No entanto, uma triste notícia mudou o rumo do texto. O falecimento da professora Mariléia Gastaldi Lopes impõe um registro especial — daqueles que precisam ser feitos não apenas por dever institucional, mas por reconhecimento humano e histórico.

A professora Mariléia foi reitora da Univille e idealizadora do projeto que transformou a FURJ em universidade. Além disso, atuou como conselheira do Conselho Estadual de Educação (CEE) e como diretora de Educação Superior da Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina (SED). Tive a honra de trabalhar com ela tanto no CEE quanto na SED, experiências que me permitiram testemunhar de perto sua dedicação exemplar às causas da educação e sua rara cortesia no trato com as pessoas.
Mariléia fazia parte de uma geração de educadores cuja contribuição foi decisiva para o desenvolvimento de Santa Catarina. Exercendo liderança no fortalecimento da rede de universidades comunitárias do Estado, ajudou a construir um sistema que se tornaria um dos grandes diferenciais catarinenses. Liderou a transformação da FURJ em Univille e, ao lado de nomes como Egon Schramm (FURB), Edson Vilela (Univali), Silvestre Heerdt (Unisul), Antônio Milioli Filho (Unesc), Viegand Eger (Unidavi), Luiz Carlos Luckmann (Unoesc), Gaston Bojarski (UnC), Nara Maria Gocks (Uniplac), entre tantos outros — aos quais peço desculpas pelas inevitáveis omissões —, participou ativamente do processo de expansão das instituições de ensino superior criadas pelos municípios nas décadas de 1960 e 1970.
Essas universidades foram fundamentais para a interiorização do acesso ao ensino superior em um período em que as instituições públicas federal e estadual ofereciam poucas vagas fora de Florianópolis. O sistema de universidades comunitárias de Santa Catarina teve — e ainda tem — impacto direto nos indicadores de desenvolvimento humano, social e econômico do Estado. A economia forte e inovadora catarinense deve muito à formação profissional de nível superior, à pesquisa e ao desenvolvimento de soluções em áreas estratégicas como tecnologia, saúde, agroindústria, eletrometal-mecânica, além da prestação de serviços essenciais, especialmente nas áreas da saúde, assistência social e direito, que complementam a atuação do Estado no atendimento à população mais vulnerável.
A geração da professora Mariléia, à frente das universidades comunitárias, deu continuidade ao trabalho dos pioneiros da implantação do ensino superior no interior catarinense e deixou um legado institucional sólido para seus sucessores, assegurando a permanência de uma educação universitária de qualidade no Estado.
Durante sua passagem pela Diretoria de Educação Superior da SED, a professora Mariléia teve papel decisivo na regulamentação dos artigos 170 e 171 da Constituição Estadual, que instituíram programas de bolsas fundamentais para a democratização do acesso ao ensino superior. Milhares de catarinenses só puderam ingressar em uma universidade graças a essas políticas, tratadas com especial cuidado por ela e sua equipe. Esses programas foram, inclusive, os embriões do atual Universidade Gratuita.
Como conselheira do CEE, foi relatora de inúmeros processos de autorização e credenciamento de instituições de ensino. Seu olhar criterioso e exigente só admitia a oferta educacional por parte de instituições que efetivamente garantissem qualidade aos futuros estudantes. Sua competência era tamanha que foi convidada a ocupar cargos públicos em outras áreas, mas o que mais permanece em minha memória é sua capacidade de atuar como mentora, formando e orientando novas lideranças educacionais — privilégio que tive no breve período em que trabalhamos juntos na Secretaria de Educação.
Para compreender a extensão de seu legado humano, vale registrar que uma dessas lideranças formadas sob sua orientação é o professor Paulo Ivo Koehntopp, que a sucedeu como reitor da Univille e hoje exerce papel central na educação catarinense como secretário-executivo da Acafe, entidade responsável pelo contínuo fortalecimento das universidades comunitárias do Estado.
A morte da professora Mariléia nos entristece e nos lembra que políticas educacionais sólidas não se fazem apenas com leis, recursos ou estruturas, mas com pessoas comprometidas, competentes e profundamente humanas. Em tempos de tanta superficialidade, sua trajetória reafirma que a educação exige profundidade, tempo e responsabilidade pública.
Santa Catarina perde uma grande educadora. Nós perdemos uma referência. E a educação, definitivamente, perde uma de suas melhores vozes.





