Artigo de Paulo Eccel, Superintendente do Ministério do Trabalho e Emprego em Santa Catarina

Ao longo da história, sempre que a sociedade avançou na garantia de direitos trabalhistas, o discurso do medo apareceu. Foi assim com o décimo terceiro salário, com as férias remuneradas, com a redução da jornada de trabalho e com praticamente toda conquista que hoje parece óbvia.
Em todos esses momentos, parte do empresariado reagiu afirmando que a economia iria parar, que os custos seriam insustentáveis e que o crescimento estaria ameaçado. Esse discurso nunca se confirmou. Pelo contrário, a economia não só cresceu, como se modernizou, ganhou escala e se tornou mais competitiva, especialmente em Santa Catarina.
O debate atual sobre o fim da escala 6×1 segue exatamente o mesmo roteiro. A ideia de garantir mais tempo de descanso volta a ser tratada como ameaça, quando, na realidade, representa mais um passo natural na evolução das relações de trabalho.
Quantas pessoas você conhece com a saúde mental fragilizada, afastamentos frequentes e queda de rendimento? Esses não são sinais de um sistema eficiente, mas de um modelo que chegou ao limite.
A escala 6×1, ainda comum em muitos setores, reduz a vida a um ciclo quase mecânico de trabalho e recuperação mínima. O tempo para a família, para o estudo, para o lazer e para o descanso real se torna exceção.
Defender o fim dessa escala não desvaloriza o esforço nem ignora a importância da produtividade.
Reconhece, isso sim, que jornadas excessivas cobram um preço alto dos trabalhadores e desgastam, cada vez mais, as relações de trabalho.
A história mostra que garantir direitos não destrói economias, transforma sociedades. O mesmo acontece agora. Modelos mais equilibrados tendem a gerar ambientes mais saudáveis, com menos rotatividade e equipes mais engajadas. As empresas que compreenderam esse movimento antes já colhem resultados concretos hoje.
Vida além do trabalho não pode ser um privilégio de poucos. E Santa Catarina, que tantas vezes demonstrou capacidade de adaptação e liderança, tem todas as condições de conduzir esse debate com responsabilidade. Defender o fim da escala 6×1 não é um ataque ao empreendedor, é um convite à compreensão de que produtividade não se mede apenas em horas trabalhadas.






